Álvaro de Bautista chegou ao Brasil aportando sua maravilhosa exposição "O Realismo Fantástico" e se apaixonou por esta terra e por esta gente. Adentrou-se pelos mares de morros e paisagens do Brasil e, claro, também pelas costas brasileiras, como bom navegante que é.
No olhar esta terra, a sua natureza e o seu povo, Álvaro de Bautista surge com uma exposição sem par, além do retrato, além do realismo, embora realista seja seu estilou técnica. Mas é muito mais do que essas expressões convencionais pois dificilmente um artista consegue juntar tais efeitos de luz, transparência e simultaneamente a alma do retratado que se traduz em poesia e espiritualidade.
Por trás das sombras de um chapéu, a pleno sol, ao pé do coqueiro tatuado, os olhos se abrem como uma janela para mostrar, em seu brilho, toda uma vida de sentimentos e sensações e um sorriso natural e humano que o artista soube conquistar para sua tela.
O marinheiro largado em sua quietude, pêlo no peito e olhar profundo e desconfiado, de quem sabe. Nada é plano insignificante neste quadro, pois até as madeiras as sentimos rangentes e o exterior, trás uma janela, no movimento do balanço tranqüilo de embarcação ancorada.
Ou, ainda, a mulher inclinada sobre a roupa que está lavando numa água transparente e em movimento, também, de um rio.
No umbral de uma porta, pau a pique, uma jovem sentada e olhando para a rua, se tiver rua - eu estou imaginando - a moça está de frente na tela e sua roupa é rica em detalhes , desenhos (flores e estrelas), com pregas dignas que em nada diminuem a dignidade das roupas nobres das telas que Álvaro pintara na Europa.
Álvaro de Bautista dá um banho em clássicos e modernos . Não se preocupa modas e estilos artísticos, reforça e valoriza o que vê e reproduz com perfeição da câmera fotográfica, mas captando das paisagens e pessoas valores internos e representativos, emocionais e essenciais, coisa que a câmera não o faz, nem poderia fazer, pois é aí que reside a arte, a sensibilidade e o talento que só o verdadeiro artista pode nos dar.
Eu desfrutaria passando em revista toda a delícia de suas personagens (seus modelos): garotos, crianças, adolescentes, jovens, velhos, vendedores, marinheiros, lavadeiras, mães dando de mamar à criança ... a terra, esta terra e o povo, este povo.
Reproduzindo sem par. Com arte só dominada por pouquíssimos pincéis, de nome privilegiados que com certeza integram os capítulos, muito especiais, da História da Arte.
Esse é Álvaro de Bautista, o artista, o mestre, sem rodeios, sem falsos e fáceis elogios: Sua pintura está aí para defasa-lo no tempo e no espaço, eternizando-o.
Do ponto de vista crítico, sei que Álvaro de Bautista, se ele quiser, poderia dominar quaisquer das tendências da arte contemporânea e se não o faz é porque não quer. Quem domina a técnica da pintura, da cor, da perspectiva, como ele domina, é capaz de pintar em qualquer estilo, porém a inversa não é verdadeira . São poucos os abstratos que conseguem imitar este realismo.