Fico sabendo que Isabel Castilho irá este ano para a Europa, começando na Espanha, levando uma coletiva da mulher brasileira na pintura de hoje. Artista plástica e carioca, Isabel Castilho já tem um amplo leque de exposições individuais e coletivas no Brasil, na França, na Alemanha, nos Estados Unidos e no Peru.
No ano passado Isabel fez uma instalação natalina no Setor A do Aeroporto Internacional de São Paulo-Guarulhos, esbanjando imaginação e criatividade.
Isabel Castilho que já se encontra no acervo permanente do MAC (Museu de Arte Contemporânea de São Paulo) inicia na aquarela com elementos figurativos mas com tendências à abstração que prevalece nos seus óleos embora de para visualizar objetos, no dizer do exper. Fábio de Magalhães. Ou porque Isabel acha-se próxima de Monet e Picasso, entre ambos, na opinião desse poeta da crítica que é Nicolás Martín, que diz que os críticos escrevemos para não dizer nada, não por ignorância senão por distração.
Quando me apressurei a escrever sobre Isabel Castilho, que vai encabeçando o grupo de artistas plásticos, mulheres, que exporão na Europa, começando pela Espanha (na Casa das Américas, de Madrid), não sabia da responsabilidade, de que só tome conhecimento ao ver seu dossier e especialmente o catálogo de sua expo em Lyon, em que ela é apresentada ao público francês por Fábio Magalhães e Nicolás Martín.
Certamente foi pela vaidade, a minha vaidade de ser o primeiro a escrever sobre esta iniciativa, mas eu sim sei o que criticar na obra de Isabel Castilho. E, na minha entrevista com ela não tive que responder se tinha entendido o que ela quer dizer na sua obra. O artista quer nos dizer sempre o seu momento, a situação em que se encontra sua psique, as influências que recebe, as cores de que gosta e o grau de domínio que têm sobre determinadas técnicas.
As críticas incorporam, no exame de uma obra, o conhecimento do crítico, sua erudição e seus anos de vôo no metié. E dificilmente consegue separar-se de ambas influencias.
Isabel Castilho pinta suas abstrações partindo da relação entre seu interior e o mundo real que a cerca. Parado frente as suas obras senti essa tenção própria que nos leva ao divã do psicanalista. Eu não distingui os perfumeis, embora agora, após ter lido a seus outros críticos possa dizer que sim, que existem. Porém notei a música em que se harmoniza sua pintura; nas superposições de cores, em luta com azuis presentes em todas as suas telas; a presença de transparências que mostram uma técnica dominada; e o uso sempre difícil de marrons e ocres, mas que Isabel consegue empregar com excelente bom gosto.
Na arte há também uma relação entre o espaço e seu conteúdo. Na verdade é exatamente como no corpo humano, onde as dimensões, o grande e o pequeno, estão relacionadas a sua comparação com outro. Um grande lenço pode conter miniaturas em seus detalhes, como um pequeno quadro pode levar-nos a horizontes de dimensões gigantescas. Outro tema de psicanálise. Agigantam-se as formas como num convite a vê-las desde dentro. Mas isto não passa de uma opinião pessoal sem apoio ou sem suficiente apoio experimental.
O pedantismo próprio dos que não possuímos outra arte que não seja a da palavra (sublime, porém em tons bem menores do que os da boa música ou da boa pintura), me leva a dar explicações do tipo: as cores são as propriedades que vemos nos objetos ao refletirem uma parte de luz e absorver outra, mas as cores não são definíveis. Por isso quando procuramos a definição de uma cor no dicionário este nos sai com exemplos. Da cor do céu, o azul; da cor da castanha, o marrom; da cor do ouro ou da cor da gema do ovo, o amarelo, etc. etc. Nos dam exemplos, mas não definem.
Trata-se, na minha opinião, de uma personalidade que vive se recompondo, se reconstruindo. As flores e os objetos, as cores e as linhas, se quebram, aparecem rotas, em toda sua obra. Aflora algo, surge uma figura e se trunca, se mistura com outra, exatamente igual ao que acontece com o eu interior de cada um, de cada observador. Afinamos nas idéias mas, quando pensamos que estas podem deixar demasiado à vista nosso interior, mudamos de tema.
Assim a pintura de Isabel Castilho. Uma pintura muito rica por ser muito pessoal. Principalmente por levar-nos a pensa não nela, na autora de obra, mas em nós. Onde estou eu, ai? Esse piano (linhas pretas e brancas em seqüência eu sempre as relaciono ao teclado) é para que eu toque? Serei capaz de passar do lilás ao verde sem transição? Do frio ao quente, sem me queimar? E esse escorregar, em gotas, é lagrima? As cores choram?
A pintura de Isabel Castilho é rica. Sugere centenas de possibilidades de estado e de aproximações. Representa bem o exotismo deste pais: o Brasil, identificado com a natureza exuberante, original e sexual, atração turística, praia, corpo nu, pais longe das formalidades culturais dos mais velhos, europeus, ou que brincam a sê-lo por considerar-se elementos de transformação, como os Estados Unidos da América.
Embora as galerias nos tenham mostrado já esta artista, precisamos ver sua pintura mais vezes. Tenho certeza de que dentro de alguns poucos anos mais ela dará risada de nossas críticas. Os críticos estamos prisioneiros do tempo e os artistas não, o artista tem a facilidade de passar por cima dele e viajar ao futuro numa pincelada.